Mão dupla
Ele andava pelas ruas invisível, sem identidade e nem face. Seu nome era João, como tantos há nesse Brasil, mas fazia muito tempo que não lembrava seu sobrenome. Quando a fome batia, a mão estendia em busca de um coração bom que se compadecesse daquele homem sujo e esquálido que, no entanto, carregava nos olhos todo um universo de vivências e histórias.
Em outra vida, outro tempo, João havia sido importante, homem das letras e dos saberes, que rodou o mundo contando histórias. Mas o mesmo tempo que lhe fez rei, acabou por lhe tirar a razão, a memória e, por último, a dignidade. Cheio de vazios e incertezas, ele circulava pelas Andradas da vida, velho conhecido de quem ia e vinha todos os dias, cruzando caminhos.
João não tinha casa, mal tinha roupa, não sabia quem era e nem para onde ia. Eram a fome e as necessidades físicas que lembravam João que ele existia. Nesses momentos, se perguntava: por que existo, para o que vim, para onde estou indo mesmo? Mal sabia João, com a mente voltando a se embaralhar, que suas dúvidas também passavam pela mente de cada um dos transeuntes ali ao lado. Quem sou? Por que existo? Qual o sentido da vida?
Por Daiane Santos

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